OS SUPER- HOMENS DA ARTE



Há muita história (e sobretudo muitas estórias…) para contar na história da arte. Estórias paralelas, que não ocupam nem notas de rodapé, em livros cuja lógica parece inquebrantável:

. A estória da compra por atacado e da aposta maciça a médio prazo em pintores impressionistas, por exemplo.

. A estória da firme determinação do colega e amigo (e também a do marchand) de Gauguin de que ele não viajasse à Europa.

. A estória de Theo Van Gogh, que estava enquadrado no negócio de arte europeu e que apesar dos seus esforços não conseguiu mesmo assim impor a mais do que óbvia genialidade do irmão nesse mesmo mercado, cujo conservadorismo se mantém inalterado nos dias de hoje.

Comecemos, por exemplo, em Pablo Picasso. Desde bem cedo marchands astutos o apoiaram, comprando-lhe inúmeras obras e permitindo que tivesse uma vida desafogada, algo raro na época. E a partir desse momento e para inflacionar a sua obra, havia que construir um mito à volta da sua personalidade. Um mito da sua força intrínseca, da sua masculinidade, do seu génio.

A única coisa que destoava era, descontadas as devidas distâncias - tal como em Jesus Cristo - a sua vida humana e as suas muito humanas fragilidades. Já o pai de Joan Miró queria à viva força que ele permanecesse no cargo de guarda- livros numa drogaria. Claro que a rotina burocrática da função o levou a um esgotamento nervoso e o pai, depois de hipotéticas e previsíveis súplicas familiares e da clara vocação criativa do filho, lá cedeu e permitiu que ele pintasse, como ocupação diária.

Era preciso construir o mito de Paul Gauguin - o selvagem que foi habitar zonas remotas, um isolado da sociedade, irascível, que encontrara a fonte da beleza universal nas remotas ilhas do Taiti.

Só que o contacto com as pessoas da civilização tinha um problema: poderia humanizá-lo aos seus olhos: há cartas do seu colega e amigo Daniel de Monfreid aconselhando-o vivamente a não viajar.

Porquê? Pode haver várias opiniões. Esta é a minha convicção, que me vincula só a mim: eu tenho como certo que pelo motivo de lucros futuros, claro está - e aqui claramente quanto maior o mito maiores os lucros. Não conhecer pessoalmente um artista é o primeiro passo para mitificá-lo. Uma hipótese arriscada? Uma ideia delirante? Será?

Neste contexto e nesta perspectiva, por que razão a depressão de Picasso está praticamente ausente das suas biografias, sendo que um estudioso duvida até que ela sequer tenha tido lugar na sua vida? Seis meses, meio ano, pelo menos, a recuperar do choque que fora o suicídio por motivos passionais do seu grande amigo Casagemas, e que originou a fase azul na sua obra, recuperação essa que terá ocorrido na terra do seu pai em Espanha. Um detalhe que é apenas referido em conversas indirectas entre amigos seus. Teria mesmo existido tal fase depressiva? Neste momento? E terão existido outras, de que ninguém ousa sequer falar? Uma informação errada? Apenas um boato? Foi mesmo assim?

Meus amigos, na arte há que construir super- homens, narrativas tão perfeitas que são autênticas cartilhas metafóricas, sonhos em plena realidade - tal como aconteceu com a figura de Cristo: coloca-se uma lupa gigante nos aspectos do talento puro e rasgam-se as ridículas cartas de amor que toda a gente quer esquecer. Como diriam os americanos, a win- win situation para todas as partes - marchands, artistas e público.

Para se construir o mito de “Picasso, o Grande”, era necessário, essencial, obrigatório, esconder a sua depressão. Ele tinha de ser indestrutível. Tinha de ser um macho latino. Tinha de ser o toureiro que encarava a genialidade (e os alemães, já agora) de frente. Tinha, no fundo, de ser sobre- humano.

Não há aqui grande ciência. Nada de criatividade, também:

. Primeiro, descobre-se um talento fora do comum - e bastava viver em Paris nessa altura para se tropeçar em dois ou três a cada esquina;

. Segundo, compra-se um enorme conjunto das suas obras a preço de saldo;

. Terceiro, organizam-se enormes exposições, de preferência em mercados pejados de grandes investidores, para impor instantaneamente um nome ou um estilo inteiro no mercado - como foi o caso do Impressionismo.

E já está: um, dois, três, voilá! A magia do marchand de arte acontece!

E pensam que hoje em dia é muito diferente??

Basta conhecer 1% da estória na sombra da (re)venda do tubarão em formol de Damien Hirst através da inflacção galopante exercida pelo seu patrono Saatchi, para ficar com sérias dúvidas sobre a validade do que nos contam sobre a história da arte em livros muuito cândidos…

Uma coisa eu admiro em Hirst: uma certa independência a vender a sua própria obra, fazendo-o directamente e sem aparentemente passar cartão aos poderes instituídos. Isso, sim, uma lição para outros artistas. Mas… o resto? Pinturas de bolinhas vendidas por milhões? Nisso ele é igual a todos os outros vendedores de sabonetes ou batatas.

Mas não duvidem por um segundo: aqui, criam-se super- homens em série, mitos com pernas - como quem compra bananas num supermercado. Senão, porque razão os galeristas de renome aconselham os seus artistas a não porem os pés nas grandes feiras de arte internacionais, como refere Sarah Thornton no seu esclarecedor livro “Sete dias no mundo da arte”?

- Por amor de Deus, não apareçam! Do negócio tratamos nós, fiquem-se pela arte, senão ficam deprimidos, e nós precisamos de vocês produtivos e alegres! - É mais ao menos isto o que se passa actualmente. Thornton é extremamente clara em relação a este assunto, não o tenta esconder como muitos fazem.

Os americanos têm um ditado curioso, que se aplica aqui na perfeição:

“Se é bom demais para ser verdade, é porque é! (bom demais para ser verdade)”.

O que tem isto a ver com arte, perguntam vocês? Absolutamente nada - ah, mas tem tudo a ver com negócio! E a arte hoje é um negócio como outro qualquer, para estas mentes iluminadas.

Ora, num tempo em que os do marketing e afins aconselham com cara séria os artistas a serem a sua própria marca e em que tipos inenarráveis como Warhol vencem na vida sem qualquer problema e são até apontados como exemplo a seguir para todos os outros (verdadeiros) artistas, não parece haver - uma vez mais - lugar para os grandes talentos da arte.

Um Jean Dubuffet, uma Vieira da Silva, um Antoni Tàpies, uma Louise Bourgeois, um Amadeo de Souza Cardoso, uma Niki de Saint Phalle?

Artistas a sério - estarão eles a mais neste “mercado da banalidade” e do mito fácil e da venda rápida…?

Têm a palavra:

“ “Actualmente, tu és esse artista inaudito, lendário, que do fundo da Oceânia envia umas obras desconcertantes, inimitáveis, as obras definitivas de um grande homem, por assim dizer, desaparecido do mundo. Os teus inimigos (e tens muitos, como todos aqueles que estorvam os medíocres) não dizem nada, não se atrevem a combater-te, isso não lhes ocorre. Enfim, tu gozas da imunidade dos grandes mortos, que passaram à história da arte. O público vai-se educando e, consciente ou inconscientemente, impulsiona a tua reputação. Vollard trabalha nisso pouco a pouco, pressente a tua celebridade indiscutível e universal”: De novo chocava com o drama de manter viva a sua lenda, ainda que isso pressupusesse morrer só e distante da sua França.”

In - “Génios da Arte: Gauguin” - editora brasileira, textos: Silvia Munoz de Imbert.

. Reza a lenda que em 1918 Pablo Picasso vociferou contra o seu marchand da altura, dizendo "Le marchand - voilà l'ennemi!" - "O marchand - eis o inimigo!".

Ele sabia bem que os marchands podiam ser muito poderosos. Na verdade, marchands são "santos" do mundo da arte: suportam os humores dos artistas e revelam génios desconhecidos. Mas são também "pecadores", acusados de todo o tipo de desonestidades na busca do maior lucro.

In - Site: Opinião e Notícia

(como mera curiosidade - sem qualquer intenção secundária, diga-se que por exemplo Ambroise Vollard foi marchand tanto de Gauguin como de Picasso)

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